Não nego a surpresa com o ocorrido no
dia 3 na América Latina. Não imaginava – ainda que possível, caso ultrapassado
os limites da loucura – que a insanidade chegasse a tanto e pulverizasse todos
os postulados desenvolvidos no curso dos séculos para delimitação das regras
internacionais consubstanciadas no respeito à autodeterminação dos povos e da
não intervenção em assuntos internos de cada país, capítulos registrados nos
livros como demonstração da evolução civilizatória.
Apenas para ilustrar, no particular da
história estadunidense o que não lhe falta são as guerras de conquista,
inclusive territorial, haja vista o que tomaram do México (apenas como exemplo
imediato), que para encerrar a guerra por eles promovida que durava desde 1845
cedeu, pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo (1848), a totalidade dos atuais
estados da Califórnia, Nevada,
Utah, e a maior parte do Arizona, Novo México e Colorado, além de partes de
Oklahoma, Kansas e Wyoming, cerca de 1,36 milhão de km² – e reconheciam a anexação
dos 695.661 km² do Texas (1845), e a tudo logo depois o acresceu com a compra
de outros 76.800km² (1853-1854).
Sintetizando: o México perdeu 55% de todo o seu território.
Mas, tudo isso há quase 200 anos,
meados do século XIX. De lá para cá duas grandes guerras mundiais na primeira
metade do século XX se desdobraram na fixação de uma nova ordem mundial, e a Carta
da ONU, de 1948, estabeleceu em seu preâmbulo:
“NÓS, OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS, RESOLVIDOS a preservar as
gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa
vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos
direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na
igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e
pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às
obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional
possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de
vida dentro de uma liberdade ampla. “
E fixou no Capítulo I, dos Propósitos
e Princípios:
“2.
Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao
princípio de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos, e tomar outras
medidas apropriadas ao fortalecimento da paz universal”.
Ainda
que no presente texto não caiba aprofundamento em torno, não custa lembrar que
a Carta da Nações Unidas não “elegeu” xerife ou delegado algum a não ser a
mesma ONU como interveniente entre as nações.
Mas,
caro e paciente leitor deste escriba de província, nestes quase oitenta anos
vimos praticamente a totalidade de assunção da xerifia por um país a ponto,
desde então guerrear contra a Coreia (1950-1953) e o Vietnã (1955-1975) sem falar-se
em derrubadas de governos constitucionalmente eleitos na América Latina.
Como
mote a ‘narrativa’ de combate ao comunismo e suas ditaduras (hegemonizado por
União Soviética e China) e desencadeando um processo de acumulação de poder
bélico de triste lembrança, haja vista Hiroshima e Nagasaki como demonstração.
Dando
um salto, cumpre realçar, pós debâcle da União Soviética (1990), um
processo geopolítico em busca de multilateralidade passou a ser desenvolvido e
aprofundado no curso do século XXI e são visíveis os sinais de que algo de
concreto está ocorrendo.
Mas,
ultrapassadas as considerações nos vemos diante de reações interno-brasileiras
ao 3 de janeiro último: uma parte defendendo o respeito à Carta das Nações
Unidas; outra, aplaudindo sob égide das narrativas de sempre: retomada da
democracia, combate ao narcotráfico (mote atual), defesa da liberdade etc. etc.
etc.
E
ficamos nós – que evitamos o aplauso barato sem apurar a qualidade da obra – a
rever/sugerir escritos nos últimos 100 anos, destacando um brasileiro e um
uruguaio: o sergipano Manoel Bonfim (1868-1932) e Eduardo Galeano (1940-2015).
As
Veias Abertas da América Latina (1971), que se tornou clássico, certamente é a
análise mais difundida do drama geopolítico sul-americano no curso dos séculos.
Uma leitura imprescindível para qualquer análise. E neste instante temos visto
a citação deste trabalho de Galeano como referência para uma análise da
conjuntura.
Mas –
este o objetivo primordial para este escrito – cumpre-nos observar o Brasil como
destinatário da análise buscando o que representa no contexto “americano” de um
brasileiro muito pouco lido, para não dizer desconhecido: Manoel Bonfim, autor
de clássicos como América Latina, Males de Origem, O Brasil na
América: caracterização da formação brasileira, O Brasil Nação: realidade
da soberania brasileira, dentre meia centena trabalhos escritos.
Darcy
Ribeiro nele via o “pensador mais original do Brasil” e Raymundo Faoro a ele se
refere como o “indignado” diante das mazelas por que passávamos.
Nos
dispensamos de escrever sobre outras vertentes afins, mas de recomendar análise
comparativa entre os textos: Teoria da Dependência, de Fernando Henrique
Cardoso/Enzo Faletto) e as teses para uma teoria do subdesenvolvimento em
várias obras de Celso Furtado, a exemplo de Subdesenvolvimento e Estagnação
na América Latina, Raízes do Subdesenvolvimento, O Mito do Desenvolvimento
Econômico, A Nova Dependência, dívida externa e monetarismo.
Ao
paciente leitor que até aqui chegou deixamos caminhos para reflexão, fugindo a
fundá-las na narrativa simplesmente, para nos aliarmos aos sábios afirmando a
incerteza em meio a tantas certezas afirmando-a ciência e dogma.
Certamente descobrirá as razões dos arroubos que sustentam as bandeiras
libertário-democratas estadunidenses.
Aliás,
parece-nos que o ‘simon bolivar’ (com minúscula mesmo) da Venezuela já definiu
o que pretende: a maior reserva de petróleo. Como já o fez com o Iraque,
Líbia...