domingo, 18 de janeiro de 2026

Entre Manoel Bonfim e simon bolivar

 

Não nego a surpresa com o ocorrido no dia 3 na América Latina. Não imaginava – ainda que possível, caso ultrapassado os limites da loucura – que a insanidade chegasse a tanto e pulverizasse todos os postulados desenvolvidos no curso dos séculos para delimitação das regras internacionais consubstanciadas no respeito à autodeterminação dos povos e da não intervenção em assuntos internos de cada país, capítulos registrados nos livros como demonstração da evolução civilizatória.

Apenas para ilustrar, no particular da história estadunidense o que não lhe falta são as guerras de conquista, inclusive territorial, haja vista o que tomaram do México (apenas como exemplo imediato), que para encerrar a guerra por eles promovida que durava desde 1845 cedeu, pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo (1848), a totalidade dos atuais estados da Califórnia, Nevada, Utah, e a maior parte do Arizona, Novo México e Colorado, além de partes de Oklahoma, Kansas e Wyoming, cerca de 1,36 milhão de km² – e reconheciam a anexação dos 695.661 km² do Texas (1845), e a tudo logo depois o acresceu com a compra de outros 76.800km² (1853-1854).

Sintetizando: o México perdeu 55% de todo o seu território. 

Mas, tudo isso há quase 200 anos, meados do século XIX. De lá para cá duas grandes guerras mundiais na primeira metade do século XX se desdobraram na fixação de uma nova ordem mundial, e a Carta da ONU, de 1948, estabeleceu em seu preâmbulo:

NÓS, OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS, RESOLVIDOS a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla. “

E fixou no Capítulo I, dos Propósitos e Princípios:

“2. Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortalecimento da paz universal”.

Ainda que no presente texto não caiba aprofundamento em torno, não custa lembrar que a Carta da Nações Unidas não “elegeu” xerife ou delegado algum a não ser a mesma ONU como interveniente entre as nações.

Mas, caro e paciente leitor deste escriba de província, nestes quase oitenta anos vimos praticamente a totalidade de assunção da xerifia por um país a ponto, desde então guerrear contra a Coreia (1950-1953) e o Vietnã (1955-1975) sem falar-se em derrubadas de governos constitucionalmente eleitos na América Latina.

Como mote a ‘narrativa’ de combate ao comunismo e suas ditaduras (hegemonizado por União Soviética e China) e desencadeando um processo de acumulação de poder bélico de triste lembrança, haja vista Hiroshima e Nagasaki como demonstração.

Dando um salto, cumpre realçar, pós debâcle da União Soviética (1990), um processo geopolítico em busca de multilateralidade passou a ser desenvolvido e aprofundado no curso do século XXI e são visíveis os sinais de que algo de concreto está ocorrendo.

Mas, ultrapassadas as considerações nos vemos diante de reações interno-brasileiras ao 3 de janeiro último: uma parte defendendo o respeito à Carta das Nações Unidas; outra, aplaudindo sob égide das narrativas de sempre: retomada da democracia, combate ao narcotráfico (mote atual), defesa da liberdade etc. etc. etc.

E ficamos nós – que evitamos o aplauso barato sem apurar a qualidade da obra – a rever/sugerir escritos nos últimos 100 anos, destacando um brasileiro e um uruguaio: o sergipano Manoel Bonfim (1868-1932) e Eduardo Galeano (1940-2015).

As Veias Abertas da América Latina (1971), que se tornou clássico, certamente é a análise mais difundida do drama geopolítico sul-americano no curso dos séculos. Uma leitura imprescindível para qualquer análise. E neste instante temos visto a citação deste trabalho de Galeano como referência para uma análise da conjuntura.

Mas – este o objetivo primordial para este escrito – cumpre-nos observar o Brasil como destinatário da análise buscando o que representa no contexto “americano” de um brasileiro muito pouco lido, para não dizer desconhecido: Manoel Bonfim, autor de clássicos como América Latina, Males de Origem, O Brasil na América: caracterização da formação brasileira, O Brasil Nação: realidade da soberania brasileira, dentre meia centena trabalhos escritos.

Darcy Ribeiro nele via o “pensador mais original do Brasil” e Raymundo Faoro a ele se refere como o “indignado” diante das mazelas por que passávamos.

Nos dispensamos de escrever sobre outras vertentes afins, mas de recomendar análise comparativa entre os textos: Teoria da Dependência, de Fernando Henrique Cardoso/Enzo Faletto) e as teses para uma teoria do subdesenvolvimento em várias obras de Celso Furtado, a exemplo de Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina, Raízes do Subdesenvolvimento, O Mito do Desenvolvimento Econômico, A Nova Dependência, dívida externa e monetarismo.

Ao paciente leitor que até aqui chegou deixamos caminhos para reflexão, fugindo a fundá-las na narrativa simplesmente, para nos aliarmos aos sábios afirmando a incerteza em meio a tantas certezas afirmando-a ciência e dogma. Certamente descobrirá as razões dos arroubos que sustentam as bandeiras libertário-democratas estadunidenses.

Aliás, parece-nos que o ‘simon bolivar’ (com minúscula mesmo) da Venezuela já definiu o que pretende: a maior reserva de petróleo. Como já o fez com o Iraque, Líbia...


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

“Quando a justiça não chega aos pobres, não é justiça para ninguém”

 

(Ou)víamos na rede um vídeo em que o Ministro Flávio Dino pontuava em evento acadêmico declinando São Tomás Morus, Papa Francisco, Pepe Mujica... Despareceu da telinha o que assistíamos, mas ficou-nos o que está no título.

Acompanhamos a atuação do ministro em sua bandeira contra atos espúrios – ora legitimados nesta república que sonha e anseia retorno a ser “de bananas” – oriundos de um Poder Legislativo que passou a negar a sua função institucional – de elaborar leis conforme a representação a ele delegada pelo povo – e se apossou e invadiu atribuições do Poder Executivo na função de efetivar a administração pública em benefício próprio/particular.

Trazemos o exemplo da atuação do ministro que salva – para este escriba de província – uma Corte que tem em sua história recente (não tão) exemplos nada dignificantes no exercício de sua função, de intérprete da Constituição da República primordialmente. E neste particular aspecto parece estar solitariamente só, haja vista que dormita há cinco anos nos escaninhos do STF uma ação que simplesmente pede, em definitivo, uma decisão para o que o ministro isoladamente tem promovido bastando, para tanto, que o Presidente do STF a leve a julgamento.

Breve repassar não nos leva a muito procurar.

Em 1964, no abril para esquecer, o STF compunha-se de nomes como Victor Nunes Leal, Hermes Lima, Evandro Lins e Silva, Antônio Gonçalves de Oliveira, Adaucto Lúcio Cardoso, Aliomar Baleeiro. Mas, o seu então Presidente, Ministro Ribeiro da Costa, naquela madrugada de 1º de abril – para preservar a ordem jurídica – legitimava e empossava Ranieri Mazzilli como Presidente da República no imediato da conturbada declaração de vacância do cargo de presidente. 

Não tardaram as intervenções da ditadura e aposentadoria compulsória de muitos de seus integrantes.

Como natural em ditaduras (assim o foi na de Vargas) a “legislação” por decretos-lei pós 1964 se tornou lugar comum. Inúmeros deles legitimados pelo STF depois da denominada redemocratização, ainda que sob égide de uma Nova Constituição Republicana!...

Não nos falta neste STF composto inteiramente sob o condão da Constituição de 1988, à qual cabe defender, “interpretações” de canalhice tal como a expressada por Tancredo Neves naquela madrugada de abril de 1964, haja vista até mesmo violar cláusula pétrea da Constituição (Art. 5º, inciso LVII) para assegurar ações político-golpistas negando a Carta no que nela afirmado sobre prisão depois do “trânsito em julgado”.

De um de seus ministros, até mesmo uma declaração pública legitimando o absurdo de um impeachment de uma presidente da República sem causa material.

E mais, um outro – hoje muito aclamado como democrata por setores esquerdistas de frágil memória – interveio em ato legítimo da Presidente (qual seja o de nomear ad nutum), deferindo liminar interposta e subscrita por integrante de seu Instituto (do qual sócio, naturalmente) para negar posse a quem por ela nomeado.

Um outro – a lista é grande, assegurando maioria absoluta a tal – negou habeas corpus para sustar procedimento processual penal promovido por vara incompetente, o que assegurou prisão para o paciente quando convinha ao sistema.

Em instante épico, de edificância lamentável, uma integrante do STF afirmou que, ainda que não existissem provas nos autos contra o indigitado acusado, se via “autorizada pela literatura jurídica a fazê-lo”. Na esteira de tamanha “defesa” dos direitos e garantias individuais, um juiz federal condenou e prendeu – à míngua de provas materiais e testemunhais – amparado em ‘atos indeterminados’.

E não podemos esquecer daquele ministro que determinou à Polícia Federal, em 2006, a instauração de inquérito (2474) para produzir a prova de que precisava para assegurar a condenação por corrupção dos integrantes do mensalão que escolhera a dedo e como tal inquérito nada apurou de existência de recursos públicos para “compra de votos no parlamento”, alijou a “prova” que requisitara por não atender aos seus espúrios desejos.

E nem falemos das decisões todas a envolver a relação entre o Estado, o sistema financeiro e os direitos do povo em que ou aquele ou o outro (sistema) são amplamente beneficiados por ‘interpretações’ mais políticas que jurídico-constitucionais.

Ainda bem que por aqui não corremos o risco de ocorrer aquele 1º de janeiro de 1959, quando um pardieiro da elite caiu sob o condão de uma gente que não mais aguentava a exploração.

Por aqui a espera de que a justiça ainda chegue aos pobres, para que seja justiça para alguém.

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Marx, Kant, fato, revelação e narrativa

 

Quando a sociedade humana – assim referida porque vinculada a quem pensa, raciocina, dialetiza – falha em reconhecer no seu passado as suas tragédias, fadada está a vê-las repetidas de forma piorada.

A conclusão se ampara na análise de Karl Marx logo no início de seu “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, tomando da dialética hegeliana o que entendia este haver citado: que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem, por assim, dizer, duas vezes, e logo acrescentar, certeiro (para ele, o esquecido por Hegel): “a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”.

E nos vemos, como escriba de província, a revolver fatos destes últimos oitenta anos desta terra brasilis, a partir de uma singularidade apenas (porque tragédias são tantas!): duas cartas ao princípio e ao fim. E, para não perder fatos histórico-pretéritos que então se afinam – porque religião e fé sempre encontram uso – o Concílio de Nicéia.

Palco de permanente controle do mandonismo das elites e de bissextas chances de ser nação para o seu povo (e haja bissexto!) este país nosso de cada, que alternou – como fenômeno sócio-político em vertente econômica – aquela fase de “feudalismo retardatário dos primórdios da colonização”, como observa Wilson Lins, e o transfigura na contemporaneidade sob outros rótulos acadêmicos, mudados apenas os elementos de divulgação e controle em razão de cada época, desde que mantido o status quo socialmente tão vetustamente como a expressão latina que o afirma como significado.

Mas, deixemos o muito a dizer para chegarmos ao pouco a que nos propusemos: instantes destes últimos oitenta anos incensados por coisas oriundas no séc. IV d.C.

Naquele agosto de 1954 Getúlio Vargas escreveu e se foi: “[...] Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida... meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.”

Neste dezembro de 2025, às vésperas de uma manifestação de religião e fé, uma outra carta – que soa a testamento – proclama: “[...] Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho para a missão de resgatar o nosso Brasil. ...Ele é a continuidade do caminho de prosperidade que iniciei bem antes de ser presidente”.

Naquele maio de 325 d.C. o Imperador Constantino I partia para encontrar a consolidação da Fé Cristã (até então dividida entre ser pretendida “do e para o Estado” e a que até então existira, do Cristianismo primitivo proclamado a todas as gentes) que se consumou sob égide da Santíssima Trindade (Cristo como “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não criado, consubstancial ao Pai”), afirmando o dogma da Trindade Pai, Filho e Espírito Santo.

O melhor – e para dar fim ao conflito: apagar os fatos, e não precisar explicar a razão por que Jesus fora o criminoso judeu morto por judeus através do estado romano na solução que até hoje perdura em meio a alguns dogmas de fé (eureca!): Deus amou tanto o homem que deu seu filho à morte para resgatar os pecados dele, “para que todo que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João, 3:16).

Caso nos voltemos para observar o processo desenvolvido pela História, ao longo de um lento e penoso curso para evolução, observaremos diferentes etapas que trazem, ao final, a conformação de conhecimento e informação, afirmando serem revelações que, em si se esgotam e se bastam, constituem fatos percebíveis porque verdadeiros. Verdades em si, verdades criadas à conveniência; fatos e narrativas.

Para não dispensarmos Emanuel Kant partindo-se de que intelecto humano se aperfeiçoa pela capacidade de colecionar incertezas – (“avalia-se a inteligência de uma pessoa pelo número de incertezas que ela é capaz de suportar”), muito nesta terra brasilis transita no terreno do transtorno cognitivo resultante da corrupção de todos os processos elucidativos e esclarecedores que se consumaram em verdades e certezas falsas para obtenção de um controle sob manipulação de quem as detenha.

Não à toa Paulo Freire é execrado por tal parcela de nossa sociedade, justamente por afirmar: “a prática de se pensar a prática é a única maneira de pensar certo.”    

Sócrates foi tido por uma das sacerdotisas do Oráculo de Delfos como o mais inteligente dos homens pelo fato de afirmar nada saber, razão por que não emitia nenhuma afirmação, tão só indagava, indagava...

Neste Natal, em tempos como o presente, de tão aprofundamento da narrativa (transtorno cognitivo) prevalecendo sobre o fato, não custa alguém afirmar que no ditoso solo brasileiro nasceu – não o mito – mas o próprio Messias.

E triste de quem disser que há um transtorno psíquico!

domingo, 14 de dezembro de 2025

Exemplo de um tempo para não esquecer

Em tempos de antanho o fim de ano nos rincões provincianos se fazia de mudar a roupagem apenas, porque nada de efetivamente de novo havia a não ser aquele “mais um dia” na vida de cada um.

Mas tudo transcorria naquele “existir” autêntico, oriundo de uma sinceridade implícita lecionada por gerações. Este escriba de província, prestes a alcançar 80 anos  se os donos do planeta permitirem que abril de 2026 transcorra no Calendário Gregoriano  viveu no curso de sete décadas o processo de evolução da Civilização e percebe em detalhes o que no curso delas ocorreu. E mesmo se debruça a escrever em torno disso.

Nesse final de 2025 muito teríamos a registrar. Entretanto pouco a acrescer no universo da preservação de valores que dignificam o homem como expressão da Humanidade. Buscando lições folheamos textos deste espaço que vão se tornando alfarrábios e resgatamos um exemplo de vida dignificante, impossível de existir nestes tempos hodiernos: o de ‘minha’ inesquecível mãe, e seu “Mingau de café".

Neste 16 faria 105 anos.  

[...} “Faleceu sem alcançar os 64. Da mais nobre estirpe sertaneja. Não por honrarias de família, títulos ou brasões. Mas pela intrepitude em decorrência da vivência naqueles confins de mundo, à época muito menos assistido que hoje. Por ali e além aprendeu a traduzir os lajedos como natural à crueza do ambiente. E quem não o fizer sucumbe.

Nascer por ali exige marca na testa em ferro em brasa como mensagem a ser lembrada diante de um espelho: sobreviver é tudo. Sem faltar o “Se Deus quiser”! – porque Ele se tornou  dos púlpitos único caminho para tudo ‘desculpar’ do que o semelhante por aqui causa ao semelhante.

Multípara, com sete sobreviventes: dos nove, um levado aos dois meses; outro nasceu na terra quando já no Paraíso.

Fazia milagres com o quase nada. De invejar economistas, que só sabem teorizar em torno da acumulação da riqueza, porque em seus vocabulários nenhuma palavra há sobre a escassez como sinônimo de fome, onde a vítima participa tão somente como unidade estatística.

Desenvolveu singular técnica para atender as necessidades familiares em nível de Vitamina C: uma laranja espremida, tornada laranjada, e o bagaço levado ao próprio estômago. A laranjada desdobrava-se em tantos copos ou meio copos até o limite de atender os filhos.

Quando terminava o cozer, a lavagem dos pratos de esmalte, de carrear água da cisterna para o encher de potes e moringas, hora de cuidar da banca dos que estudassem e logo o pedalar na velha máquina Singer para costurar os retalhos e torna-los em colchas, cobertas ou cerzir as roupinhas dos filhos. De vez em quando um vestidinho, um calçãozinho.

Nunca se viu nela uma lamúria, um desassossego.

Tampouco alimentou ‘papai noel’ algum. Tanto que aprendemos a assistir os visitados escolhidos pela lenda debruçados no batente das janelas quando amanhecido o dia. Até que esquecêssemos que não fôramos visitados pelo velhinho porque, muito provável, desobedientes quando insistimos em ficar acordados a sua espera para agradecer por tudo.

No rádio da vizinha, “seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem” abafava o alarido da alegria infante exibindo bonecas, carrinhos, bicicletas, bolas, brinquedos vários.

Mas havia algo mais.

Sabido e consabido que carne seca – quando dispõe –, rapadura e farinha de mandioca são o milagre dos peixes que faz sobreviver no sertão caatingado e resseguido.

Para ela, outro milagre: quando tudo faltava – do dinheiro ao que comprar – café e farinha. Reunidos naquele manjar dos deuses chamado mingau de café.

O mingau de café de Adelaide.

A “mãe e heroína” que nos levou “à compreensão mais extrema do significado de saudade”.*

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*Extraído da dedicatória levada ao romance Amendoeiras de Outono (Via Litterarum, 2ª edição, 2013).”

 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Retornando aos poucos

Cá estamos retomando a busca por incomodar o estimado e paciente leitor. Algo temos escrito. E publicado em livro. No entanto, por razões que não conseguimos explicar, não levamos à publicação aquilo que nos zumbe na forma de crônicas, ensaios e poesia. Mas algo nos pede para retornar. E o fazemos explorando e abusando daqueles que leram e escreveram algo sobre este escriba de província.

Assim, como o fez o escritor e jornalista Antônio Lopes.

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Em busca das palavras perdidas

Antônio Lopes *

    Inquieto e indignado, Adylson Machado é capaz de dissertar, desde que tenha auditório interessado, sobre variados temas. É um erudito, sem ofensas. A história, a filosofia, a literatura de ficção, a economia, os estudos de Direito e a degradada política partidária nacional formam sua agenda diária. Na rua, no ABC da Noite ou em sala de aula, a palavra, límpida, cortante e justiceira, é sua lança, brandida contra todas as formas de injustiça, mesmo que venham disfarçadas em moinhos de vento.

    Admitamos que, grosso modo, o romance é o ápice da produção ficcional, de culto difícil, às vezes doloroso, quase vedado a principiantes. Estes costumam ensaiar a memória, a crônica e o conto, antes do voo mais arrojado. Adylson, fiel ao seu modo desafiante de ser, logo enfrentou e venceu as armadilhas do romance, estreando com Amendoeiras de outono (Via Litterarum/2005), obra que surpreendeu positivamente quantos a leram.

    Ali, críticos atilados perceberam uma linguagem com nuances de Joyce ou tinturas de Proust, num bem-sucedido esforço de ligadura passado-presente pela via da palavra escrita. O autor imprime em seus trabalhos as pegadas do novo, sem ruptura com o passado, mas não se aprisiona ao saudosismo doentio ou ao romantismo piegas. Ainda que vagueie por pasárgadas e utopias, sua face de realista fantástico está sempre desnuda.

    Em verdade, trata-se de um artista que escreve como quem vive: sua tessitura ficcional sabe a Julio Cortázar, num combate diuturno contra o que está posto: há de se mudar a escrita e o mundo, parece nos dizer. Nesse anseio, ele, a poder de construções alicerçadas na crueldade dos dias sujos e no ideal espaço da poesia, se propõe a desconstruir velhos moldes, para dar lugar ao provir – preservando o que, por ventura, deva ser preservado.

    Em O cinza e o silêncio, ora dado a lume, ele comprova essa suspeição de inquietude destruidora (no sentido cortazariano da palavra), e inverte os termos da equação: do romance, foi ao conto (não o contrário), transgredindo a práxis consuetudinária. O cinza... é uma coletânea de apenas oito estórias curtas, sendo que a mais densa (O queiro) tem treze páginas, algo como frasco pequeno para perfume de alta qualidade – se mereço clemência pelo lugar-comum.

    É escritura engagée: denúncia das desigualdades sociais (sobretudo num meio rural com relações vassalo-suserano), expressões regionais com sabor de coisa antiga e boa (certamente não sabidas dos moradores do asfalto), em moldura de poesia em prosa – como a tornar menos cruel a vida dos seus anti-heróis. Isto lembra Amendoeiras? Felizmente, sim – do contrário não teríamos um estilo. E temos.

    Um conto deve ser fechado, unir início e fim, de sorte que a impressão inicial seja confirmada no fecho – adverte o mestre Hélio Pólvora, divulgando valiosa lição de Tchekhov: “Se no primeiro capítulo aparecer uma espingarda, mais adiante alguém terá de dispará-la.” Nesse particular, agradou-me sobremaneira uma navalha que surge em Carrilhões e que, no fecho, terá papel decisivo.

    Teria sido Mallarmé quem afirmou estar a poesia nas palavras, não nas ideias e sentimentos, mesmo que sejam destes, os sentimentos, que vêm ao poeta as palavras justas. Adylson maneja as palavras, sugeridas pela força subliminar do seu espírito de artista, como verdadeiro poeta.

    Músico, ele lapida o texto como se anotasse melodia em pentagrama, o que resulta numa escrita cuidadosa, limpa, detalhista, sonora, colorida: começa com um acorde, muda de modo, vai do maior ao menor (ou vice-versa), improvisa, voa, viaja, retoma o tema e encerra no acorde inicial, às vezes discreto, às vezes apoteótico.

    Além de Carrilhões, é imperioso destacar Espelho Partido, pelo seu ambiente de tragédia grega, ambos os contos dignos de antologia. Anote-se ainda um sujeito que “vestia arrebóis e alvoradas” (em Sísifo, uma estória que soa com sutis citações de Stendhal), o suave erotismo de Encontro, outra vez o trágico, com punição para o pecado. O queiro (que nos dá a deliciosa expressão “a viúva a cântaros, diariamente”) é sobre um personagem esfacelado, posto atônito diante do mundo, angustiado, esmagado pelo peso dos dias iguais que se sucedem, talvez qualquer um de nós. Essa rotina é como um queiro inflamado (ou dentiqueiro, ciso ou queixeiro) – nos lembrando que pior do que dor de dente, só dor de amor... E se mais não aponto é por não querer tirar do leitor o prazer das descobertas.

    Adylson Machado, se falamos dessa coisa um tanto vaga, aqui chamada arbitrariamente de “literatura do sertão” (seja no romance ou na estória de mais curto fôlego), lembra Graciliano Ramos, tangencia Guimarães Rosa e assenta-se ao lado de Francisco J. C. Dantas. Não é pouco.

* Jornalista

 

 


domingo, 13 de abril de 2025

Anistia destes tempos

 

A voz corrente para uma corrente da sociedade: anistia. Para alguns eleitos, naturalmente.

Aprende, ao vivo e em cores, o  caro e paciente leitor que não está em pauta a “anistia”, mas a narrativa que dela se faz para a apropriação de interesses em jogo.

Diversamente de outras anistias concedidas a pretendida tem singularidade muito própria à terra brasilis, o que – muito apropriadamente – nos leva a defini-la como a ‘nova’ jabuticaba brasileira: anistiar quem nem mesmo foi condenado. 

E para demonstrar que em nível de jabuticaba o Brasil é ímpar – e inova sob seara surrealista – também se busca que nem o poder estatal incumbido de apurar e julgar exerça o que lhe determina a Constituição.

Como os pretendidos à anistia são um punhado de coitadinhos poderíamos – aproveitando a narrativa que ocupa o noticiário – propor estendê-la de forma explícita e nominada aos deputados que subscrevem o projeto.

Ah! E como há intimidade entre os interesses também incluir os que estão sob investigação por desvio de dinheiro do Orçamento Público (parte de 200 bilhões de reais nos últimos quatro anos).

E como corre em meio a pedidos de anistia a sofrência de intestinos sensíveis sob observação não custa reconhecer tudo como tempero de um mesmo cardápio que naquele órgão se metaboliza.

Cuidemos, por precaução, de tamparmos nossas sensíveis narinas, que não podem ser alvo de anistia!